Postar este final tem sido uma dor de cabeça... este verde batr+áquio deve ter algo contra... eu escrevinho, eu posto e ele não fica... teimoso do gaijo! Enfim... já cá tá... e neste corvo também entra! E está muito bem... fotogénico o senhor pássaro!
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Acordei novamente com uma névoa junto à janela… era pesada e espessa.
Estava solta. Tinha sido solta.
A Rita estava sentada a perseguir o corvo, acinzentado da névoa, através do vidro da janela.
…
Em, casa a Rita dizia-me que o corvo me tinha trazido de volta…de volta do mundo dos tristes melancólicos e feridos de amor.
Talvez ela tivesse razão e durante meses eu não houvera sido nada mais… mas naquele momento sentia-me dubiamente inteira.
O médico dizia-me que com uma cirurgia plástica a pele das costas voltaria a ser normal. Eu não a queria normal… queria-a assim!
Das minhas costas nuas pintadas num espelho via rasgões que se assemelhavam a duas enormes asas. Se o facto de quase ter sido retalhada para o mercado negro de órgãos me tinha dado asas, quem era eu para as negar?
Asas que não me faziam voar mas me ofereciam um esgar de sorriso cada vez que voava pelas estradas no corcel motorizado.
A realidade era que as minhas asas não me levaram a ver a Rita quando o cancro finalmente a levou. Quando um anjo teve piedade do seu sofrimento e ela partiu deixando saudades.
No dia do seu enterro, parei a mota em frente aos muros caiados de branco daquelas que seriam as paredes que a confinavam. Paredes brancas, que a confinaram toda a sua luta pela vida, que nos confinaram enquanto estive numa cama de hospital. Olhei para ambos os lados da estrada e segui pelos portões enferrujados, que teimavam em não se mover. Estavam a tapá-la com um manto castanho fofo e eu senti urgência em expelir o conteúdo do meu estômago. Pedi desculpa à lage que o escondeu. Mas os mortos não se interessam com o vómito dos vivos. Voavam aves negras pelo cemitério, perguntei-me se alguma seria a “minha”. Quando todos se foram embora deitei-me ao lado da Rita, como ela tantas vezes fez quando eu estava presa à cama com as “asas” a cicatrizar.
Não chorei mas ri em silêncio, com dor sentida e sentido de ausência de tudo o que me recordava. Quando a noite caiu, levantei-me dali e prossegui para mais um voo. Olhei duas vezes e atravessei a estrada. Aproximei-me da mota e olhei novamente, duas vezes… No bar olhei duas vezes antes de me sentar ao balcão. Brindámos à Rita e brindámos a coisas… muitas coisas! Quando sai do bar olhei duas vezes e lá estavas tu… estarias lá de tantas outras vezes que não olhei?
A realidade é que estavas… e desta vez estiveste para sempre independentemente do estatuto.
A Rita partiu até um dia, eu aprendi que existem paredes que não podem ser trepadas, devem ser contornadas ou derrubadas, a olhar duas vezes quando escolhia um caminho e tu apareceste a olhos que aprenderam a ver. A Ver mesmo, nem que para isso fosse preciso ver duas vezes.
§ Momentos
§ Noite
§ Toca-me
§ Corvo também entra ... co...
§ Aceitam-se sugestões... ;...