Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Tu e Eu

Mais uma vez estamos frente a frente, não no mesmo café muito menos na mesma mesa, mas a situação era idêntica a muitas outras. Sentados frente a frente. Tu, mãos nos bolsos do casaco, observas o que nos rodeia, as pessoas que passam. Sempre achaste fascinante observar pessoas, fazes os teus filmes mentais, que procuram, que sentem, o seu estado de espirito no momento.

Eu, como de costume falo, falo e falo, quando estou assim é quase que compulsivo, tenho de despejar o que me vai na alma. Tu, como de costumes ouves , geralmente apenas ouves pois falas muito pouco. Encontraste fechado nesse teu casulo e muito raramente de lá sais. Nestes últimos 21 anos, que já dura a nossa relação, acho que só saíste de lá por duas ou três vezes, não gostas de mostrar o teu lado mais frágil, esse lado sensível e emocional que tens. Eu sei que o tens pois já o vi, mas tu preferes esconder-te por detrás desse ar de duro, de pedra, que raio porque te é tão difícil quebrar essa casca?

Mais uma vez, já lhes perdi a conta, o tema somos nós, durante todos estes anos nunca consegui admitir que te amo. Sei que me amas, á tua maneira mas amas, sem reservas sem pedir muito em troca, bem apenas gostas de um pouco de mais bom feitio da minha parte. Sempre que isso acontece fechas-te ainda mais na tua casca como se tivesses medo de ser atingido, de te magoares, porque não suportas a dor de uma vez por todas e largas a armadura? É-te bem mais fácil analisar, olhar, do que te expores? Enfim já deveria estar habituada a isso, durante anos esperei pelo dia em que aparecesses, não de cavalo branco, mas apenas sem a armadura.

Durante todos estes anos sempre tive a sensação que precisava de ti, que não conseguia ser nada sem ti. Estava dependente, viciada em ti e durante todo esse tempo nunca consegui admitir para mim mesma que te amo.  Depois de todas as minhas buscas interiores, na procura de deus e da alma, agora que os encontrei pois já sei que se encontram em mim, aliás sempre lá estiveram mas eu nunca soube ver, sei que te amo. Agora que tenho essa certeza já consigo admitir que te amo mas, por estranho que pareça agora já não preciso de ti, agora quero ser eu espelho de mim mesma, já não preciso desse teu jeito de estar e não estar, já não tenho medo de estar só. Agora que consigo ver que te amo também sei que já não preciso de ti, agora que me encontrei, já não dependo de ti. Já consigo ser um ser humano pleno, já sei estar só sem o estar, já sei viver.

Olho para ti, os teus olhos não mentem, sei que me amas, sei que de alguma forma aceitarás o que eu decidir, a minha incerteza, para não dizer o meu medo, é que se decidir seguir só, se esperas por mim, se me continuarás a amar desse mesmo jeito, dessa mesma forma. Será que largas a armadura e vens viver comigo?

Mais uma vez á volta de uma mesa de café falamos da nossa vida, mais uma vez encontramo-nos numa encruzilhada  do mundo, mais uma vez estamos à prova, mais uma vez as nossas almas, já velhas conhecidas, vão ter que dar um passo no caminho de “deus”.

 

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publicado por Passo às 12:34
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