Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005

Marés de fogo II

Lembro-me de te ver através da névoa cerrada e rasteira que ia sendo expelida das várias bocas que refugiavam cigarros ao rubro.
Ainda estava desconcertado com o que nos acontecera.
Para ser honesto as coisas aconteceram num ímpeto. Não sei se foi realmente uma iniciativa minha ou se foste tu quem se deixou levar pelo balanço das gargalhadas. Também não é muito importante saber se um de nós não dominou o desejo.
Senti um frio no estômago como quando tinha 16 anos e me apaixonei pela professora de francês. Ainda hoje acho que essa professora -cujo nome nem me recordo – foi a minha grande paixão. Tenho ideia de te ter tocado no braço. Talvez fosse um pedido de desculpa…talvez fosse uma justificação. Qualquer coisa como mostrar-te que tinha sido um acidente, que não tinha sido intencional… Mas isso seria mentir.
Carmins, carnudos e deleitosos mas tão fugazes esses lábios….Tão fugazes…!
Mas tu não deixaste que os meus olhos procurassem nos teus um sinal. Um qualquer fosse ele de prazer ou de reprovação! Fugiste apenas.
Tentei abstrair-me do som, das luzes, do fumo para me concentrar apenas no sabor que havias deixado nos meus lábios. Era uma mistura amena, um sabor melífluo que me excitou o paladar.
Estiveste muito tempo ausente sem o estares… Eu sabia que estavas a saborear tal como eu…que estavas impaciente. Querias fugir dali. Querias sossegar o desejo que se apoderara de ti.
Eu esperei pacientemente. Não queria apressar o que ambos sabíamos inadiável.
Quando o dj anunciou a ultima musica senti como que um sopro de coragem. Levantei-me e aproximei-me de ti aproveitando o ambiente sombrio oferecido pela mistura das luzes a piscar e do fumo intenso. Toquei-te no ombro. Tu não reagiste de imediato.
Não trocámos palavras. Apenas olhares. Intensos, cúmplices e indubitáveis. Não eram precisas palavras.
As mãos em concha afagaram-te o cabelo frágil mas negro qual mistura de azeviche com ébano. Os dedos rolaram no teu pescoço pálido. O contraste não podia ser mais evidente…Mas que bem te fica o cabelo negro no pescoço marmóreo…Quase que apetece dizer que é um contraste harmonioso…como se fosse possível tal coisa!!
Saímos daquele espaço e seguimos a estrada até onde ela nos quis levar.
Lembro-me de adormecer agarrado a ti. Os corpos nus e suados, um de encontro ao outro. Lembro-me de respirar o ar que exalava de ti.
Quando acordei não estavas. O teu lugar havia arrefecido há muito.
Procurei-te. Queria estar contigo, queria olhar nos teus olhos, queria ter a certeza que havias entendido o que se passara entre nós. Não era amor. Não. Eu não te amava. Pelo menos do modo como o termo amor é definido frequentemente. Não! Sentia por ti algo que não era delimitado. Mas não era amor. E queria ter a certeza que tu sabias o quanto te amava sem te amar.
Estendeste-me uma chávena de café. E por entre o vapor voltei a ver-te, mas desta vez vi-te assustada, culpada… Vi uma mulher apaixonada.
Eu não sou um homem de paixões. Nunca o fui. Não.
Bebi o café e saí. Sem mais palavras, sem um beijo, sem um adeus.
Continuo a adormecer enroscado no teu corpo…mesmo quando adormeço cercado pelos braços de uma outra mulher.


Querida "companheira"
Tu convidaste e eu aceitei. Li o teu texto e tentei dar uma outra visão.A visão do outro lado.Espero que seja merecedor de exibir o mesmo titulo ;)
(este texto é a outra face de um publicado no blog www.asasnegras.blogs.sapo.pt pela Crowe)
publicado por crowe às 22:33
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3 comentários:
De Crowe a 11 de Janeiro de 2005 às 20:49
"Companheiro", não sei se sou merecedora de tanta simpatia mas agardeço-a... gostamos sempre de ser apreciados pelas coisas k criamos! Gostei muito da versão. Nota 20 neste desafio! =)Há frases que estão particularmente belas...faça favor de continuar a escrever
De Cass... a 11 de Janeiro de 2005 às 16:07
Bem,vc's de facto excederam-se ! Adorei! Gostava de conseguir escrever assim tao belo ! Beijos aos dois... :)
De Passo a 11 de Janeiro de 2005 às 12:07
Realmente é como já tinha dito anteriiormente .. k bela parceria ... e aki está a visão, ou a possivel visao, da outra parte do conto Marés de fogo ( q ja comentei no Asas Negras) assim k tudo na vida ha sempre 2 verdades .. ou possivelmente até mais ... de todos os acontecimentos sejam eles ficção ou n .. seria interessante ler aki ou no Asas negras a visão do DJ q patrocionou de tal momento heheh ... e mais uma vez parabens ... pela exelente parceria

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