Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2005

Visões

Acordei...
Sobressaltado, coração palpitante, gotas de suor corriam pelo meu rosto.
Novamente o mesmo sonho. Cataratas... alguém que me empurrava... até parece que ainda sentia a pancada sofrida nas costas... a queda envolvida num ruído ensurdecedor de cascata que me soa a um riso, água, sem conseguir respirar, tentar subir à tona, sempre aquela sensação de impotência, de tentar lutar… de não me deixar levar, de não ser arrastado.
Afasto todos esses pensamentos e salto da cama, na mesa-de-cabeceira o relógio marca 02.00, na penumbra vejo o maço de cigarros. E porque não? Vou para o meu local preferido: a varanda da sala com vista magnífica sobre a cidade! Lá ao fundo o rio, sinto um arrepio, a noite está amena e a lua já brilha alta, magnifica num céu estrelado como só há naquelas noites de verão! A cidade está praticamente adormecida... alguns carros... o camião do lixo... o cigarro acalma-me! já consigo olhar o rio sem estremecer... respiro a noite e sinto o sono a querer entrar de mansinho. Solto um bocejo. Se os vizinhos me vissem agora em shorts a fumar um cigarro e a bocejar, que linda figurinha.
Solto um sorriso, a beata já me queima os dedos. É melhor voltar para a cama que amanhã o dia vai ser complicado... encontro com o João no Fórum. Há que tempos que não via aquele bacano, tinha ido trabalhar para fora, casado, e de repente estava aqui e queria que lhe desse um tour pelas últimas novidades cá do burgo... e queria começar logo pelo Forum acha que a esposa queria fazer umas compras... enfim sempre aproveitava para ver as modas e conhecer a mulher que tinha arrebatado o coração daquele estouvado do meu amigo de infância. E depois ainda tinha aquele convite para ir trabalhar para o Canadá, tinha recebido o mail com espanto... tinha enviado o CV sem grande optimismo, as entrevistas tinham corrido normalmente... ainda não sabia bem que fazer á minha vida nada me prendia ali a não ser aquela vista aquele rio e a cidade, a cidade onde nasci, com as suas ruelas, os seus cantos que me tinha visto crescer e fizera de mim a pessoa que sou hoje. Mas a vida segue o seu ritmo próprio e agora convidava-me a voltar para a cama. Adormeci com um pensamento... Canadá... quais são as cataratas: Niagara?
água. Não consigo respirar. Sinto-me envolto por algo que não consigo controlar, a minha mente rodopia num frenesim. Que fazer?... Tento nadar mas não consigo, apenas esbracejo... as minhas mãos tocam algo. Areia! Uma onda empurra-me e sinto a areia debaixo de mim, oiço aquele ruído ensurdecedor que me soa a um riso, olho o mar e fica perdido naquelas matizes verdes azuis e sinto-me pequeno.
Novamente aquele barulho ensurdecedor, mas agora parece um besouro... epá acorda é o despertador.
Quase perdi a vontade de tomar duche, depois de tanta água seria a última coisa que estava a precisar, mas o cheiro a suor de uma noite agitada... seria preferível ter sido agitada por outra razão qualquer... há quanto tempo não tens uma noite agitada de transpirar copiosamente onde a cama é um emaranhado de emoções e desejo que galopa freneticamente até atingir os picos da mais pura loucura?... Despacha-te ainda não estás atrasado mas sempre aproveitas para dar uma olhadela aos livros na FNAC.
A empregada de caixa até é bonita, tem um sorriso com qualquer coisa.
Deixa-te disso, pede o café. senta-te e lê o jornal como um bom menino!
As notícias do costume, tragédias aqui, acidentem ali a economia e os políticos o costume. Enfim nada de novo vou fazer o que mais gosto observar as pessoas à minha volta... um casal de namorados que não vem nada à sua volta, um grupo de intelectuais a trocar ideias à volta da “bica” alguém a ler o jornal, uma mulher a ler um livro, um casal a conversar sobre o custo de vida.
Dou mais uma vista de olhos a ver se algo desperta o interesse, a mulher levanta os olhos do livro, olha-me nos olhos, terá pressentido que a observava... olhos cor de mar... algo entre o azul e o verde, rosto suave pele clara, cabelos de um negro tão intenso que parecem reflexos azuis. Desviei o olhar pois tornara-se demasiado óbvia a minha observação... olhei o jornal sem interesse e levantei novamente os olhos... olhos azuis... verdes... timidamente sorri... continuou imperturbável, não sorriu... fiquei sem jeito... olhos no jornal mas foi mais forte que eu, olhos azuis. verdes, tal qual uma estatua de olhos fixados em mim. seria em mim ou apenas olhava o infinito e eu estava simplesmente no caminho. Olhei para trás... burro só há a parede, nem um cartaz, nada que chame a atenção... olhos verdes... azuis... dentes imaculadamente brancos. sorriu! Apesar do ar condicionado senti calor na face... lá estas tu com o vicio do semáforo... passei rapidamente de laranja a vermelho... riso... soou-me a familiar, sorri de volta e perdi-me no verde azul do mar, arrastado pela dúvida, será verdade, será real?
Mexi-me na cadeira o jornal caiu no chão. riso. semáforo. mais riso (estranhamente familiar) colocou o livro em cima da mesa, fiquei rígido, o meu sorriso desapareceu, mas estranhamente o calor da minha face não. Na sua mão esquerda tinha um sinal de sentido proibido, segui o meu olhar e sorriu, uma leve rubor assomou-lhes nas faces. Voltei ao meu jornal mas as notícias, se antes não sabiam a nadas agora pareciam papel mastigado sentia a boca seca. Levantei-me, olhos verdes... azuis. senti tristeza. seria? A caixa afinal não era bonita, pedi uma água, não resisti... olhos verdes. azuis. sorriso... semáforo. riso (familiar) encheu de coragem num sussurro... toma algo? Sorriu e abanou a cabeça... calor.
Voltei a sentar-me o jornal já perdera todo o interesse ... olhei estava de pé a minha frente sorriu, antes que podesse dizer o que quer que fosse deixou um pequeno papel e saiu, deixando a sua passajem um perfume a mar e um desejo de me perder naqueles verde .. azul.
O papel atraiu-me como um íman, as mãos tremiam o coração batia desenfreadamente .. a curiosidade venceu foi mais forte ... apenas dizia ... nunca desista à primeira. Sorri, olhei o relógio estava perto da hora do encontro com o João. Tinha-lhe dito para se encontrar comigo junto à cascata numa das entradas do Forum.
Que ideia alguém colocar uma cascata num centro comercial... bem afinal até era agradável. De repente pancada nas costas... riso... (estranhamente familiar) volto-me e sou abraçado com força... quase que perco a respiração...
-João... epá tás na mesma!
-... A minha esposa !-... mar... verde. Azul, o mesmo sorriso.
O barulho da cascata e o riso (familiar) fica perdido naquela imensidão... sinto novamente uma pancada nas costas.
-Acorda pá ficaste enfeitiçado ou quê?
-Epá não estava à espera! Como é que um gajo como tu arranjou uma preciosidade destas? Risos...beijos.
- Muito prazer!-voz suave que me faz arrepiar.
- É todo meu.- riso. verdes... azuis.
- Onde vamos? Já fizeram as compras? Almoça-mos por aqui?
- E tu meu malandro que é feito, já casaste?
- Ainda não... ainda não encontrei a mulher da minha vida...! – azuis…verdes... risos.-Mas pode ser que encontre uma canadiana que me encante?
- O quê?
- Conto-lhes o convite que tive!
E seguimos os três para o rebuliço que é o mundo das compras.

Com os agradecimentos à minha revisora pessoal que tão graciosamente acedeu corrigir os meus pontapés na gramática ... beijos
publicado por crowe às 17:45
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2 comentários:
De pluma a 14 de Janeiro de 2005 às 10:05
Querido passo comecei por este conto já vou ler o outro que escreveste, quanto a este tenho a comentar o seguinte (vou ser metódica):

1º obrigado por me fazeres sorrir;

2º obrigado por me dares boa disposição logo de manhã;

3º obrigado pelo «prazer» que me deste ao ler este teu conto;

... e muito mais

pelo encanto

pelo humor

.... enfim está «delicioso»...

Com este conto sinto-me «vencida» ehehe eu bem sabia ke eras tu o «vitorioso» ehehe :)))

Beijos (de uma fã)
De Crowe a 13 de Janeiro de 2005 às 18:16
Adorei e sabes disso!Ai eu não sei, não sei1 e depois apresentas-me este espectaculo(ainda por cima na fanc... e so estilo)! Enfim essa revisora pessoal deve ser memso um espanto... uma querida! Disponibilizar-se assim... lol beijos doces

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