Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

Visões II ( juntos para sempre)

Acordei...
Sobressaltado, coração palpitante, gotas de suor corriam pelo meu rosto.
Aquele sonho ... verde ...... luzes .. gritos ... choro ... luz .. dor... sirenes.
Era a última noite que passava naquela casa. Tinha querido torna-la inesquecível, algo para me recordar quando me sentisse mais só, quando estivesse num daqueles momentos nostálgicos de saudades do meu país. Mas simplesmente não o conseguia, a minha mente voava para aqueles olhos verdes ... azuis.
A minha memória percorreu estes últimos dois meses, o reencontro com o João, a sua companheira Cristina, a quem carinhosamente chamava Nina. Os momentos que passamos os três juntos, as idas a espectáculos, os jantares o relembrar dos nossos cantinhos preferidos quando miúdos, os novos que entretanto descobri ... o seu sorriso, o seu riso ... olhos verdes .. azuis. Tinha simplesmente que esquecer que existia, a minha mente parou no dia que estava a terminar. O João tinha-me convencido a vender-lhes a casa, eu só a queria alugar, mas ele foi insistindo e hoje acabamos por fazer a escritura. Parte de mim, naquela cidade, desapareceu com aquele simples acto de assinar um papel. Convidaram-me para almoçar mas estava sem espírito, e além do mais tinha ir fazer uma últimas compras pois amanha embarcava para o Canadá para uma nova vida.
Olhei para a casa e vi os meus poucos pertences emalados, apenas levava a roupa os livros e os CDs, tudo o resto tinha sido incluído na venda da casa.
Naquele dia o João não me parecia bem, o que usei também como desculpa para não aceitar o convite para almoçar, precisava estar só, de me refugiar num dos meus cantos. Depois de muito deambular lá me resolvi ir fazer as compras pois precisava de roupa quente e acabei por parar no sitio do costume, geralmente o local onde nos encontrava-mos os três, e também onde vi pela primeira vez aqueles olhos .. verdes ... azul.
Café numa das mãos, cigarro na outra, procurava uma mesa e para meu espanto, olhos verdes .. azuis que sorriam para mim num mudo convite para me sentar. Sorri , sentei e ficamos em silencio naquela troca de olhares.
O João tinha ficado em casa pois não se sentia muito bem. Ultimamente andava muito cansado, e a conversa foi seguindo o seu rumo próprio, até ao dia em que nos conhecemos, risos .. nem sei porquê corei, pensei que já me tinha curado disso .. sorriu. A sua mão tocou a minha ... corei, (teria sido propositado, intencional) .. corei novamente, desta vez riu. Fiquei sem saber que fazer, levantei-me e tentei fugir dali, segurou-me no braço como que a dizer .. não vás...
Olhei para o relógio, e despedi-me os seus lábios roçaram os meus, senti o sangue a aflorar à minha face ... olhos verdes ... azuis ... sorriu.
Perguntou-me como ia para casa com aqueles sacos todos, disse-lhe que apanhava um taxi. Ofereceu-se para me levar o que acedi.
Paramos na garagem do prédio, fiquei sem saber se a convidava a subir ou não, um lado de mim dizia que sim, o outro que não. O meu dilema terminou pois o seu telemóvel tocou. Era o João a dizer que não se sentia muito bem. Ficamos um momento calados entregues aos seus pensamentos.
Disse-lhe adeus ... olhos verdes ... azuis .. marejados por lagrimas salgadas, senti uma tristeza imensa, beijou-me docemente os lábios ...
– “quem sabe, numa próxima reencarnação?” .. sorri ...
– “quem sabe, espero bem que sim” ... sorriu ... – “Adeus Nina”
– “Adeus ... até amanha, pois vamo-nos despedir de ti ao aeroporto” .. sorri-mos.
O jantar não me animou, bem tentei tornar a noite inesquecível mas não o consegui a minha mente voava para aqueles olhos ... verdes ... azuis ... o seu sorriso ... os seus lábios que tinham incendiado os meus, o melhor seria dormir e esquecer tudo aquilo.
Acordei sobressaltado já há muito tempo que não tinha um sonho assim ... sirenes!!??? Era o telemóvel que tocava. Atendi, alguém chorava do outro lado. Parecia-me a voz da Nina. Entre soluços e algumas palavras lá consegui perceber que o João tinha tido um enfarte, que se encontrava no hospital, que estava muito mal.
Vestir a correr pegar na moto, as suas palavras não me saiam da cabeça, coração .. enfarte, teria ouvido bem ... transplante?? Devia ter feito confusão. A estrada passava por mim a alta velocidade, carro, carro, curva, coração ... sinal verde ... peão!!!! ... travar ... desviar ... luzes... gritos ... dor ... sirenes ...
Ouvi alguém chorar, ainda estaria a dormir, teria sido tudo um pesadelo?? Que dor era aquela no meu peito, não me conseguia mexer, experimentei abrir os olhos.
João!!?? Como te sentes? Olhos verdes .. azuis .. corei .. mas não sorriu. Abraçou-me .. lagrimas corriam pelo seu rosto, só a ouvia dizer .. a operação correu bem .. mas ... o nosso amigo .. choro... o nosso querido amigo.
Fez-se luz ... dor muita dor .. lagrimas ... afinal continuava-mos todos juntos.
publicado por crowe às 10:30
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4 comentários:
De darkeyes a 10 de Fevereiro de 2005 às 09:15
O dificil com os sonhos, às vezes, é perceber se é bom ou mau acordar!! neste caso ficou-me a dúvida!mas uma coisa é certa:...a dormir não se vive, pelo que sonhar por sonhar, mais vale sonhar acordado. Com a vantagem (será??)de, neste caso, podermos manobrar um pouco o sonho! Gostei Passo!
De Cass... a 9 de Fevereiro de 2005 às 21:18
Como sabes 'Homy, este conto deixou-me confusa,n consegui dar-lhe o sentido que tu pretendias transparecesse. :S * sou um cadinho loira* Mas tal qual um quadro pode ser visto de diversas formas tb um conto e um poema é lido e sentido por cada pessoa de forma diferente...
Continua!
Um beijo...
De Cass... a 9 de Fevereiro de 2005 às 21:18
Como sabes 'Homy, este conto deixou-me confusa,n consegui dar-lhe o sentido que tu pretendias transparecesse. :S * sou um cadinho loira* Mas tal qual um quadro pode ser visto de diversas formas tb um conto e um poema é lindo e sentido por cada pessoa de forma diferente...
Continua!
Um beijo...
De Crowe,;) a 8 de Fevereiro de 2005 às 20:29
O tempo é ladrão! Mas o tempo não rouba as impressões e as coisas belas! Um beijo e parabéns pelo desfecho!

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