Terça-feira, 17 de Janeiro de 2006

Para além desses telhados de zinco

Estas linhas não deveriam existir. Porque há momentos mágicos que devem permanecer intocáveis na nossa memória, precisam de ser manipulados com muito cuidado para não se quebrarem. Alguns desses momentos aparecem tão depressa como se fizeram sentir, outros multiplicam-se ou, quem sabe, multiplicamo-los nós. Despertam-nos. São anjos. Talvez os mesmos que eu imaginava nos meus sonhos de criança: tinham a mesma idade que eu e guardavam uma nuvem onde todas as noites eu me escondia. Lembrei-me disto há dias, porque pensei que tinham voltado. Mas sei que não é assim, apenas voltei a acreditar.
Vivo no centro de uma cidade que se assemelha a uma mulher que caminha ao longo de um rio com um longo vestido a arrastar-se nas águas. E todos os dias descubro-lhe novos contornos. Sinto a chuva na cara quando corro nas horas que os outros escolheram para dormir um pouco mais. Passeio nas ruas desertas quando saem das janelas de um só bairro os cheiros de todas as gastronomias do mundo. Subo aos zimbórios proibidos e aos terraços que mais ninguém conhece para avistar telhados vermelhos e espreitar o interior das águas furtadas com portadas de madeira e paredes de zinco. Ás vezes, apesar do Sol, as gaivotas vêm pousar sobre as antenas dos prédios. Ás vezes, não se ouvem os automóveis, os eléctricos, os gritos das crianças. Ainda há espaços destes na minha cidade imaginada. Escoa-se-me como suor a memória do que não valia a pena fazer, enquanto me falta o ar ao chegar a casa. Preciso desta cidade imaginada e deste espaço, lentamente faço parte dela e sou reconhecido. E descubro-a ao mesmo tempo que me descubro a mim. Tenho todo um percurso para recomeçar, com a vantagem de já o ter seguido com outros olhos. Há dias em que insisto em partir a correr; nessas alturas, canso-me depressa demais e tropeço, sôfrego na minha ânsia. Noutras alturas, adormeço. Atraso-me. Perco tempo precioso. É nesses dias que estou menos atento aos momentos mágicos. No outro dia, 24 horas pintadas com a palete das nossas emoções, fui descoberto. Há experiências que encerram em si uma misteriosa dualidade: geram em nós forças que nos empurram para a vida e, ao mesmo tempo, cravam-se como espadas afiadas na nossa auto-estima e transformam-nos nos farrapos que já fomos. Por isso, e porque sempre fui um ouvinte, falar é uma dádiva abençoada. Principalmente agora, quando as areias do tempo ainda não me fizeram gostar desta protectora solidão ou, pelo contrário, para ser apanhado em novas redes que me devolvam à superfície.
Por isso, também, acordei mais tranquilo nos dias seguintes. E fui surpreendido pelo Sol e pelo frio. Não fiquei à espera de ouvir tocar aquela música. Não fiquei triste quando o Céu voltou a encher-se de núvens, antes aproveitei para caminhar a pé, à noite, no regresso a casa, e passar ao lado das pessoas que se abrigavam debaixo dos toldos das lojas e dos átrios dos prédios.
Afinal, todos os dias recebo mais do que espero. Porque não espero nada.
publicado por crowe às 00:11
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11 comentários:
De Mr.Utopia a 25 de Janeiro de 2006 às 15:19
Ainda bem que gostaram, transmitirei ao autor. :)
De Passo a 23 de Janeiro de 2006 às 12:27
heheheh um homem maduro?? sera aquele q ta pronto a cair do pedestal, ou no caso, da arvore?? :s
De Carlos a 23 de Janeiro de 2006 às 09:57
Se és uma MULHER que aspira encontrar um HOMEM MADURO



Faço-te um repto, um convite, para que me digas:



O QUE É PARA TI UM HOMEM MADURO?
De Passo a 20 de Janeiro de 2006 às 14:14
ja tyinha saudades de ver p aki texos teus :) mt intenso esse mundo essa cidade q descobres todos os dias :) nada como olhar mos p o nosso interior e descobrir mos coisas novas :)
De Zofia a 19 de Janeiro de 2006 às 23:50
Adorei. Escreves e emocionas e por isso prendes-nos aos textos que escapam de ti. Beijinhos. Vou passar aqui mais vezes.
De igara a 19 de Janeiro de 2006 às 18:35
Tive que voltar aqui...tinha um peso na consciencia...Oh Star...desculpa a brincadeira, mas a verdade é que não resisti. Utopia, a ti já te pedi desculpas...mas mais uma vez (penitencio-me e até estou a pensar numa forma de me auto mutilar, uma forma que não doa muito). Beijos ::)))
De igara a 19 de Janeiro de 2006 às 16:28
Elá...o Star vai absorver o Utopia? que cena! Vou telefonar-te agorinha mesmo...antes que deixes de me ouvir por estres a ser absorvido! hahahahahhahahahaha até já (com as lágrimas a saltarem dos olhinhos). beijo ::)))
De Star a 19 de Janeiro de 2006 às 12:23
É a primeira visita que te faço. E o primeiro texto que leio teu. E gostei...muito. Vou continuar a absorver-te por aqui e depois comento com mais calma. :)) Beijo
De igara a 19 de Janeiro de 2006 às 10:16
Meu querido amigo, confesso que me deixaste de boca aberta. Habituei-me a ler-te em verso, e já me tinha esquecido como era bom, ler-te em prosa. Fizeste-me sonhar um pouco, acordada...deixei-e embalar apenas! E mais, tenho que te dizer, visto que não esperas nada, vou telefonar-te hoje, para teres uma surpresa hahahahaha. Um beijo manso meu querido ::)))
De pluma(princesavirtual) a 18 de Janeiro de 2006 às 18:02
:) clap clap...

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