Sexta-feira, 1 de Abril de 2005

Segredos - Segredos de Infância

menina segredo.jpg


Toda a minha infância foi pautada por segredos. Lembro-me da minha mãe segredar algo ao meu pai, da minha avó segredar á minha mãe, do meu avô segredar á minha avó. SEGREDOS!!! SEGREDOS!!! Segredos....
Até os nossos passos em casa eram «segredados».

Quando cresci e me tornei «gente», foi assim que na sabedoria da minha avó me tornei alguém com quem se poderia também segredar (não entendi muito bem em que altura ela assumiu que eu já era GENTE) jurei a mim mesma que os segredos seriam «enterrados» bem fundo, calcados e afastados.

Muitos anos depois conclui que os meus esforços de um funeral digno aos «segredos da minha infância» tinham sido infrutíferos. Quantas vezes não parei de teclar um relatório no escritório e abstrai-me de todos, voltava a passear em «segredo» pela minha casa, a ouvir os sussurros, a ver os olhares cúmplices da minha família.

Os meus pensamentos nessas alturas eram velozes, interrogava-me constantemente sobre o conteúdo dos «segredos» e a razão porque nunca foram compartilhados comigo???

Se bem que tenha sido sempre essa a minha opção... desde que fui formalmente reconhecida como «Gente».

Naquele Verão, naquelas férias, resolvi voltar á minha casa e aos meus «fantasmas»...Já não via a minha avó há algum tempo e enchi-me de coragem
para ter uma conversa em «segredo» com ela.
.

Tinha que desfiar aquele novelo...

Naquela tarde depois de termos bebido uma limonada fresquinha no alpendre, sentei-me aos seus pés e mais com o olhar do que com palavras, pedi-lhe para me revelar os «segredos», os «murmúrios», a cumplicidade da «partilha» das palavras na nossa família.

Ela sorriu com o olhar,- essa é uma característica da nossa família sorrir com o olhar - e pediu-me para lhe ir buscar uma caixinha de madeira, que estava colocada sobre a cómoda antiga. Entreguei-lhe a caixinha, que me hipnotizava desde criança, ela abriu-a no colo, e de lá saltaram , pétalas de flores secas, fotos antigas da nossa família, os meus dentes que deixei para a fada do dentinho, a foto da minha primeira bicicleta, as minhas festas de anos, os olhares sorridentes da minha família.... Olhei para a minha avó - que continuava a sorrir com o olhar - sem entender muito bem o conteúdo daquela caixinha e a sua relação com os «segredos ».





E ela muito baixinho, de uma forma que as palavras se misturaram com a brisa, com o cheiro da terra, das recordações, dos murmúrios do passado, e do presente, sussurrou ... o segredo.

- Amor incondicional, partilha, cumplicidade e amizade. Quando eras pequena, asseguramo-nos que estarias rodeada por tudo isso e os nossos «segredos» eram a forma de te proteger, surpreender e amar. Esta caixinha é a prova viva disso...

Pela primeira vez senti que também sorria com o olhar. E segredei também eu palavras ao vento... ali na minha casa, onde eu era «Gente»....

@ autora desconhecida de todos os séculos


As edições Pluma iniciam assim um novo ciclo de pequenos contos sob o tema "Segredos" alguns de autores "desconhecidos" outros não. Tentaremos arranjar fotos que se adequem aos contos :-)
publicado por crowe às 11:46
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4 comentários:
De Passo a 4 de Abril de 2005 às 14:02
Ja li este conto uma serie de vezes e n me canso de o ler. De uma ternura comovente q me faz lembrar os meus pequenos momentos na casa dos meus avós. Deixa-me sempre a mesma sensação ... arrepios e lagrimas ...
De pluma a 4 de Abril de 2005 às 10:18
Eu lembro-me de coisas da minha infância...coisas que vi com os meus olhos de criança...que me intrigam e que ainda me deixam a pensar :))) nunca me sentei num alpendre para desvendar esses mistérios :))) tenho que pensar nisso
De || sar!nha || a 3 de Abril de 2005 às 22:33
oi...texto mm mtt lindo...espero vir aki mais vezes e poder ler os teus segredos,incrivelmnt bem cntados k me fazem lembrar d tdx akeles k eu mesma susurrei...**kiss gande
De Miguel a 3 de Abril de 2005 às 22:24
Quem cresce com amor ( incondicional), com cumplicidade e amizade, é uma pessoa que sabe partilhar a vida.
Obrigado por compartilhares connosco este segredo da tua avózinha, auto desconhecida, sejas tu quem sejas...
Continua a sorri com o olhar, mesmo que nós o não vejamos. Imaginamos-lo apenas...
Que bonito !

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