Quarta-feira, 4 de Maio de 2005

Página solta

“…Não havia justiça naquele sorriso trocista. Ainda hoje, observando aquele momento como um espectador imparcial, e não como se não o tivesse vivido num qualquer mundo distante, lembro-me da sobranceria do seu sorriso. As famintas areias do tempo, tão céleres na ocupação de um território que outrora tinha sido meu, tão dolorosamente esclavagistas na arte de me destituir dos dias em que o Sol brilhava – dias que sei ter tido – em que as sardas nos rostos das crianças pareciam notas genialmente alinhadas numa pauta musical, nos quais a liberdade se mascarava numa corrida que parecia ser para sempre eterna na orla daquele serpenteante riacho, tinham cavado um oásis negro de memória, uma janela para o meu primeiro contacto com a sombra da personalidade humana. Lembro-me de sentir o rosto a incendiar-se de indignação, de sentir o sangue a latejar-me nas têmporas, como se cada plaqueta sanguínea tentasse sair por cada poro e testemunhar o que o meu mudo espanto não conseguia fazer.
Palavras. Adagas em forma de letras por vezes, independentemente da idade em que são proferidas. Certas palavras dão-nos as mãos para toda a eternidade, tornam-se seres vivos. “Foi ele”. Ouvi estas palavras muitas vezes depois daquele dia, mas nunca…”.

Dei por mim a pressionar levemente o botão de stop do arcaico leitor de cassetes e os bucólicos sons da natureza contígua, tão aviltantes na sua diferença, mas simultaneamente tão bem vindos, abriram uma brecha no dique da minha concentração. Concentração que se tornara fugidia e dispersa nos dias anteriores, manietada que estava pelos acontecimentos daquela noite escura, em que o fogo tinha lambido a alma dos homens bons. Os romances fazem-se com dementes e vilões, com gente, igual a toda a gente, mas com o seu quê de louca e insana individualidade, gente torturada pelas suas misteriosas obsessões e pelas ardilosas armadilhas do implacável e padrasto destino. Gente como todos nós. Pelo menos era assim que pensava, sentado num velho carocha, o meu mais recente símbolo de desapego para com o recente modernismo gritante que tinha atingido Lisboa como um meteorito, debaixo daquela árvore frondosa, cujas sombras desenhavam puzzles indecifráveis no árido solo alentejano, e onde, pela primeira vez em dias, tinha sentido o bálsamo do olvido. Tinha fugido sem destino do arrastar mortiço dos ponteiros, como se vivesse uma experiência de imobilidade. Os dias eram tão lentos que se pareciam arrastar no calendário, tudo o que conseguia fazer era suar. Escrever. Apenas uma página nas duas últimas semanas. E, até esse momento de castração, tinha sido um trabalhador diligente e meticuloso, mas a verdade é que, agora, o projecto tinha atingido um nível de intensidade tal, uma continuidade a um propósito que roçava a obsessão, que as folhas brancas que os meus olhos focavam, até horas antes, se tinham tornado um horror tão certo como indesejável. Tinha-me tornado, atrevo-me a dizer, um louco animal recluso e subterrâneo, seco e críptico. Obriguei-me a lavar o meu corpo, como se o gel de banho e a esponja conseguissem retirar a nódoa que tinha no espírito (Afinal de contas todos nós, suponho, queremos acreditar em coisas impossíveis, convencer-nos de que os milagres podem acontecer, em qualquer momento, em qualquer altura, a qualquer um de nós), a fazer a barba, o meu redemoinho de vontades, vestir roupa lavada e sair de casa, sem destino. O meu único acto não planeado nas últimas semanas. Não que tivesse sido ditado pela espontaneidade que residia no âmago dos impulsos que sabia habitarem em mim, mas antes por uma necessidade quase mórbida de saúde mental. Como tal, pegara no caixote onde zelosamente guardava as cassetes, que continham as conversas gravadas das sessões tidas com aqueles aos quais alguém, numa tirada de humor tão cru como negro, tinha chamado de “Os Amaldiçoados”, e tinha partido.
publicado por crowe às 02:04
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4 comentários:
De Passo a 5 de Maio de 2005 às 08:37
Fez-me lembrar uma musica dos xutos "has-de encontrar, akilo q procuras ..." gostei muito :-) um abraço
De cass a 4 de Maio de 2005 às 20:57
Como sempre um texto perfeito, magnifico muito ao estilo do meu amigo Utopia ! Um beijo... e saudades...
De Utopia a 4 de Maio de 2005 às 19:21
É, como o nome indica, uma página solta de um "quase todo". Um beijo miga-esvoaçante.
De Crowe a 4 de Maio de 2005 às 17:43
Muito realmente e ao mesmo tempo muito ficticio! Adorei Parabéns da "pêlo na venta" residente!;)

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